Rodrigo Lari˙ fala sobre seu selo Midsummer Madness

Rodrigo Lari˙ fala sobre seu selo Midsummer Madness

Um cara versátil, cheio de idéias na cabeça e de opinião firme. Rodrigo Lariú, criador e diretor do selo independente Midsummer Madness Records, é tudo isso e muito mais. Quando se embrenhou pelas searas da produção de eventos, trouxe ao Brasil Yo la Tengo e Stereolab, ícones do rock alternativo. Também trabalhou na MTV e, atualmente, é produtor e diretor de TV free-lancer. Apesar de não se acreditar nem tão persistente quanto deveria, nem tão esforçado quanto gostaria, permanece incansavelmente ouvindo, selecionando e tornando acessíveis novos sons.

A história do MMRecords começou com um fanzine, em 1989. Seu principal assunto? Bandas nacionais. Em 1994, passaram a lançar fitas cassete. Em 1997, saíram os primeiros CDs, mesmo ano que foi inaugurado o site. Atualmente, o Midsummer Madness divide-se entre as tarefas de gravadora, editora e produtora. Com mais de 20 anos de existência, lançou cerca de 60 bandas nacionais e 100 álbuns, notadamente de indie rock.

Vasculhando o site do selo, é impossível não se surpreender com a própria ignorância. Lá estão bandas das quais muitas vezes nunca se ouve falar, mas pelas quais é fácil se apaixonar a primeira vista. A qualidade dos discos é indiscutível e o preço, mais do que acessível. Para quem realmente gosta de rock, a parada é obrigatória! Para conhecer um mínimo do acervo que ali está são necessárias diversas visitas...

Em seguida, um pouco do que Lariu pensa e sente quando o assunto é música, bandas, seu trabalho e o MMRecords.

DotMag - Você criou e dirige um dos selos independentes mais importantes do país (o Midsummer Madness Records). Quais são seus critérios ao escolher os projetos nos quais se envolve? E suas motivações para seguir investindo em produzir e lançar novas bandas?

RL - Alguns critérios menores mudam com o passar do tempo, mas um critério que permanece é gostar da música em questão. Jamais lançaria uma banda que tem músicas de que eu não gosto. Pode parecer uma enorme egotrip, mas o lado prático disso é que eu simplesmente não conseguiria trabalhar só por dinheiro com músicas ruins E tem que ser uma atração mútua: se a  banda não gostar do Midsummer Madness, também não funciona.

Os critérios menores variam: já escolhi bandas que eu achava que poderiam vender muitos CDs, já escolhi apenas porque eram estranhas, já resolvi trabalhar com algumas apenas porque era fã, apesar de saber que iria ter um prejuízo enorme, tipo Telescopes. Hoje em dia escolho bandas que saibam trabalhar em parceria, dividir os deveres e os prazeres.

Tem uma coisa muito importante sobre esse assunto: as pessoas sempre cumprimentam o Midsummer Madness pelos trabalhos prestados, mas eu gostaria de reforçar que os verdadeiros protagonistas são as bandas. O que faz o Midsummer Madness ser uma boa gravadora é seu cast de bandas e não somente o nosso trabalho.

DotMag - Quais são os ingredientes que compõe uma boa banda/boa música, que proporcionam um diferencial em relação às/aos demais?

RL - Isso é muito difícil responder, praticamente impossível. Se eu gosto de música progressiva, os ingredientes são uns, se eu gosto de forró, são outros. Mas, no tipo de banda que lançamos pelo midsummer madness eu destacaria a devoção ao barulho, às letras muito legais ou muito idiotas... mas sei lá, não tem como responder. É questão de gosto mesmo.

DotMag - Você já lançou mais de 60 bandas por meio do Midsummer Madness Records. Também produziu shows de bandas como Yo la Tengo e Stereolab, reverenciadas no mundo inteiro. O que gostaria de fazer e ainda não fez?

RL - Eu acho que tudo que fiz pelo Midsummer Madness é muito pouco. Na verdade, eu sou preguiçoso e desleixado. Se eu fizesse metade a mais do que normalmente faço, talvez as bandas fossem mais conhecidas, talvez todos nós estivéssemos ganhando um pouco mais de grana com tudo isso. Então, eu gostaria de ser um pouquinho mais inteligente, um pouquinho mais dedicado e persistente. O que mais tenho para o Midsummer Madness hoje são planos; alguns brilhantes, outros malucos, mas todos executáveis. Basta tomar vergonha na cara.

DotMag - Diante da enxurrada de novas bandas de rock que nossa época assiste, sente que existe alguma renovação importante acontecendo na linguagem musical? O volume de novidade te parece proporcional à quantidade de lançamentos?

RL - Eu já tive minha época de "melhor banda de todos os tempos a cada semana". Mas é curioso... Hoje, quando vou escutar música, gosto de várias novidades mas as que me arrepiam ainda são as mesmas de sempre. Já conversei sobre isso com amigos. Quando eu era pilhado de ficar correndo atrás de banda nova todo dia, com meus 15-18 anos, era tão difícil ouvir coisas novas que talvez eu ouvisse tudo com mais interesse e atenção. Hoje é tão fácil ouvir tudo que você talvez não se envolva tanto. Chego a achar, às vezes, que perdi interesse na música. Daí é só ouvir um Love Battery, um Ride, um Velvet Underground para voltar a crer nisso tudo.

A quantidade de bandas ruins continua na mesma proporção. Antes você tinha menos bandas e. por isso. menos bandas ruins. Hoje são muitas bandas mas tem muita porcaria. Às vezes é frustrante entrar no MySpace e ouvir a quantidade de banda horrível que adiciona o perfil do Midsummer Madness. Antes eu recebia 8 demos ruins em cada 10. Hoje eu recebo 80 links pífios em 100, mas a proporção continua a mesma: de 10 bandas, apenas 2 se salvam. É por isso que a gente tem poucos discos e EPs lançados. Nosso lance é qualidade e não quantidade.

DotMag - Quais são suas perspectivas em relação ao MMRecords no futuro? O que podemos esperar?

RL - Quero continuar lançando bandas o tempo todo. Por lançar entenda-se bandas novas, outras não tão novas, outras antigas sendo resgatadas. Pretendo melhorar o site do mmrecords ainda este ano e incluir a história prévia do mm, com os zines. Se a gente tiver grana, queria poder fazer um documentário com tudo q fizemos em 21 anos, em vídeo. Como ninguém se habilita, vou partir pro auto-documentário. A única coisa q atrapalha é a tal de preguiça e a falta de tempo.

DotMag - Indique 5 bandas (ou discos) nacionais e internacionais que todo mundo deveria ouvir, na sua opinião, e nos fale um pouco dos motivos que fizeram indicá-las/os.

RL - Estes discos e bandas mudam com o passar do tempo. Mas hoje eu indicaria:

Second Come - Superkids, Superdrugs, Supergod and Strangers (lançado no final da carreira da banda, o 2º disco de Fábio, Francisco, Fernando, Reyson e Kadu representa tudo que eu sempre admirei em música. O Second Come foi para mim uma das melhores bandas nacionais de todos os tempos, além de eu ter aprendido um monte de coisas com eles).

Killing Chainsaw - Early Demons (essa é uma demo ao vivo gravada entre 1991 e 1992 em Piracicaba, terra do quarteto. Eu adoro as bandas do Rodrigo Guedes, a fase inicial do KC e depois o Grenade. Esta demo foi lançada pelo midsummer madness - dá uma conferida neste link.

My Bloody Valentine - Ecstasy & Wine (LP que reune 2 EPs da banda lançados antes do clássico "isn´t anything"). É quase folclórico eu dizer que adoro este disco. Ele vai virar minha epígrafe. As guitarras, as texturas, a velocidade, quase tudo que eu adoro está ali. O quase é porque tem algo que eu adoro e não sei explicar.

The Gilbertos - Os Eurosambas 1992 - 1998 (lançamos este CD em 1999 pelo Midsummer Madness). São as músicas gravadas por Thomas pappon depois que deixou o Fellini e se mudou para Europa. Thomas tem um gosto musical apurado mas não é um músico exímio. Isso faz as músicas deste disco terem uma beleza e uma perenidade contagiantes.

The Jesus & Mary Chain - Psychocandy (melhor amostra do que personalidade pode fazer a uma banda. Eles peitaram gravadora, imprensa e toda uma cena para mostrar que o som que faziam em seus quartos era genial. Psychocandy é essencial, e deve sempre ser ouvido no maior volume possível.)

Fotos: Ragnar Paz 

 

 



Miki Malka Assessoria de Imprensa
Miki Malka
http://mikimalka.com.br

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